29 julho 2013

Dívida sem Perdão!

"A prestigiada revista Nature (ver artigo de Filomena Naves, no DN de 25 de julho) alertou para a "bomba-relógo" representada para o clima e para a economia mundiais pelo iminente colapso parcial do "permafrost" dos fundos marinhos do oceano Ártico, agora exposto ao aquecimento da coluna de água exposta à radiação solar, devido ao degelo das massas de gelo flutuantes. Com isso poderão ser libertados para a atmosfera 50 mil milhões de toneladas de metano, cujo efeito de estufa é vinte vezes mais intenso do que o do dióxido de carbono. E não ficamos por aqui. Estudos sobre o comportamento dos oceanos mostram que a maior parte do calor associado às alterações climáticas está a ser absorvido pelos mares, e que, com uma alta probabilidade, ele será devolvido, parcialmente, à atmosfera, dentro de alguns anos, aumentando, assim, de modo brusco, a temperatura média à superfície do planeta. Por outro lado, a investigação sobre a criosfera, em particular na Gronelândia, revela-nos um processo muito acelerado de desagregação dos glaciares, que provocará, se se confirmar, uma subida, muito mais rápida do que o previsto, do nível médio do mar, tornando o litoral numa zona ameaçada pelo aumento da erosão e da intrusão marinha, danificando as infraestruturas costeiras. Enquanto andamos entretidos com bagatelas como a "dívida soberana", encolhemos os ombros à destruição acelerada da habitabilidade deste planeta que tratamos como se fosse um de entre muitos, e não a única casa onde os nossos filhos poderão sobreviver na solidão do infinito cósmico. A dívida soberana poderá ser reestruturada e amenizada. A dívida ambiental, do futuro que estamos a deixar roubar aos mais jovens, e aos que ainda não nasceram, essa, não tem perdão."


Viriato Soromenho Marques  - Diário Notícias 

 

04 julho 2013

A maldição de Unamuno !

"O grande filósofo espanhol Unamuno (1864-1936) conhecia bem Portugal. Foi amigo de Manuel Laranjeira, que terminou a vida disparando um revólver contra si próprio, em 1912. Unamuno registou também a bala mortal de Antero de Quental (1891), antecedida do disparo fulminante de Camilo Castelo Branco (1890). A indução é quase inescapável. Unamuno chamou a Portugal "um país de suicidas". Ao olhar para a situação deplorável do Governo, é impossível não pensar que o diagnóstico do pensador espanhol permanece, de alguma maneira, válido. Num Governo com ampla maioria parlamentar, suportado incondicionalmente por Belém, com uma oposição cordata, o Executivo implode devido ao desacerto entre Passos e Portas. Há, contudo, duas diferenças: Laranjeira, Quental e Camilo puseram termo à existência, não na sequência de uma explosão narcísica, como no choque entre Portas e Passos, mas talvez por terem olhado o mundo de frente, demasiado tempo, sem pestanejar. Em segundo lugar, Laranjeira, Quental e Camilo dispararam apenas contra si próprios, enquanto Portas e Passos agrediram uma nação inteira. Não foi só a destruição de valor na Bolsa nacional, que escalou quase aos três mil milhões de euros. É a confirmação, aos olhos do mundo inteiro, de que somos liderados por adolescentes que não cresceram, na altura em que o País precisaria, desesperadamente, de estadistas. Quanto aos dirigentes do CDS que mandataram Portas para dialogar com Passos, aconselho a que troquem os filmes de série B, sobre zombies, por leitura clássica. Recomendo o Livro dos Mortos do Antigo Egito, um tesouro de espiritualidade recuperado para a Europa pelo alemão Karl Lepsius. Aí se aprende que a viagem dos mortos se faz apenas num sentido. Sem regresso."
 
 
Viriato Soromenho Marques     Diario Noticias