28 novembro 2021

Entrevista a Jorge Palma

 




Numa tarde de muito calor, com vista para o Tejo, Jorge Palma sentou-se com a BLITZ para uma conversa panorâmica sobre a sua longa e rica carreira. Sempre com muito humor, o músico português desvendou alguns pormenores sobre o concerto especial - sem público - que se encontra a preparar e também sobre a canção que Carlos do Carmo lhe pediu para escrever. “Demorei quase 20 anos, mas gostei do resultado final, e o Carlos também”. A omnipresença do piano na sua vida e a curiosa relação que teve com a religião, na infância, foram outros dos temas da nossa entrevista com Jorge Palma.

Deu recentemente alguns concertos, no Porto e em Tavira. Como é atuar para plateias de máscara e com distanciamento entre espectadores?
A partir da declaração do Estado de Emergência, a 18 de março, houve o confinamento e eu fiz algumas coisas: tocava em minha casa, para as redes. Depois tive convites para fazer concertos não muito extensos: para a Embaixada do Canadá, por exemplo, em streaming. Sinceramente não sofri muito com o confinamento, porque neste momento e já há bastante tempo, não tenho sido um homem das noites, ao contrário [do que fui em] todo o meu passado. (risos) Passo muito tempo em casa, onde tenho o piano, as guitarras, os livros e onde escrevo. O primeiro concerto fora de casa e sem público foi em Chaves, na Casa Museu Nadir Afonso. Toquei seis temas, salvo erro, integrado no ciclo Postais Musicados. O primeiro concerto com público foi nos Jardins do Palácio de Cristal, no Porto, numa iniciativa da câmara e associados. No dia seguinte tive um evento particular em Gondomar e em Tavira toquei com público, [num concerto] também da câmara. É um bocado estranho ver as pessoas todas de máscara. Eu próprio experimentei pela primeira vez, já que sou um privilegiado e não tenho de andar todo o dia de máscara… fui ver um concerto do Salvador Sobral e passei quase duas horas de máscara, no [Teatro] Maria Matos. E não é nada agradável. (risos) O Salvador Sobral tentou pôr as pessoas a cantar. As pessoas distanciadas, de máscara… nem que fôssemos cantores de ópera se ouviria. Agora a vida continua. Estou a a trabalhar a 100% no evento que vai acontecer no dia 12 de setembro. O local não pode ser divulgado, já que não vai haver público. É uma iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, integrado no ciclo Lisboa na Rua.


Como será esse concerto?
É um concerto muito especial, porque vou ser integrado numa orquestra de câmara. São 14 elementos, alguns deles polivalentes, tocando bastantes instrumentos. Serei eu, o meu piano, eventualmente [tocarei] alguma coisa à guitarra, e a direção de orquestra está a cargo do maestro Cesário Costa. Tenho convidados: a Cristina Branco e os Dead Combo. Farei dois temas com cada um deles, e os arranjos e orquestrações foram repartidos por dois grandes músicos e orquestradores, por quem tenho muito apreço: o Filipe Melo e o Filipe Raposo. Estou muito bem entregue. Agora é eu não roer a corda, não fazer asneira, para estar à altura deles todos. (risos)


E será transmitido online?
Sim, isso é muito importante! Vai ser transmitido nas redes sociais da Câmara Municipal de Lisboa, no meu Facebook oficial e [nas redes sociais da] EGEAC. Assim as pessoas, em número indefinido, poderão acompanhar não presencialmente o concerto inteiro.












Este ano celebrou o seu 70º aniversário. Conseguiu festejar, ou ainda estava confinado?
Eu estava em Tavira, a gozar uns dias de férias. Normalmente recebo muitas mensagens de parabéns e telefonemas. Mas os meus 70 anos suscitaram um movimentar de amigos e colegas, com toda a gente a mandar-me vídeos muito fixes. Foi surpreendente. E muito bom!

E não foram só amigos e colegas. O próprio Presidente da República lhe enviou uma mensagem de parabéns!
Já vai aí! (risos) Quando eu fizer 80... o panteão? Já próximo das tumbas. (risos)


Na altura apresentou o esboço de uma canção nova. Tem estado a trabalhar num próximo disco?
Comecei a trabalhar num próximo disco há mais de três anos, em 2017. Depois fui deixando... Agora tenho este concerto e outro muito especial, a 1 de outubro no Teatro Louletano, em Loulé, com um trio de jazz. São três craques do jazz, vamos lá a ver como se safo nessa, também. A partir daí vou rever aquilo que já escrevi. E obviamente o vou modificar e atualizar. Eu não faço promessas. Mas até ao final do ano hei de ter uns 10 ou 12 temas gravados, pelo menos.

As pessoas cobram-lhe muito um disco novo? Perguntam quando sai?
Eu agora digo: “é quando estiver ao meu gosto, como eu quero”. Nunca me senti pressionado para gravar discos. E tenho tido o privilégio, desde o primeiro álbum, aliás, desde o primeiro single, de ter tido portas abertas e nunca ter de me preocupar com o financiamento das despesas de estúdio, músicos e essas coisas. Assim continua e se me sinto pressionado… não gosto. Por outro lado, também já tenho aceitado encomendas, e aí funciono. Se me comprometo a ter uma letra ou uma música, ou ambas, para determinada pessoa, em determinada altura, aí consigo. O Carlos do Carmo já gravou uma canção que lhe estava prometida há 20 anos. Disse-me: “Não é um fado, que tu não sabes escrever fado. Escreve-me uma canção”. Eu demorei 20 anos, quase, mas gostei do resultado final e o Carlos também. Há coisas que são sem prazo.


Ainda prefere escrever à mão?
Houve uma altura, nos anos 80 e 90, em que usava uma máquina de escrever muito velha. Mas só para 'imprimir'. Para escrever, é sempre esferográfica e papel. Para responder a entrevistas e escrever textos, escrevo diretamente no telemóvel ou no computador. Mas para escrever [canções] gosto do movimento da mão solta. E de riscar e fazer setas e asteriscos, uma grande confusão. (risos)

E percebe o que escreveu, depois?
Eu percebo. E aí passa-se a limpo, já no computador. Mas como tenho os meus dois 
managers, que funcionam em estreita colaboração, o André Sebastião e o Tiago Branco, há uma série de coisas que já não tenho de fazer. Gatafunho uma letra, de forma legível, fotografo e eles tratam de imprimi-la, com aqueles processos atuais todos, que eu sou um bocado nabo em relação às novas tecnologias. Lá me desenrasco, no essencial. Não há nada como a folhinha de papel e a caneta.


Na rubrica da BLITZ, 101 Canções que Marcaram Portugal, Jorge Cerejeira escreveu sobre 'Bairro do Amor': “Jorge Palma é mais do que música, é poesia. É aquele cigarro entre os dedos. É aquele sorriso franco e aquela voz arrastada. É o rosto das madrugadas. Do tilintar de copos e de conversas francas – como que a selar amizades eternas no último vodca tónico”. Parece-lhe uma descrição justa?
Isso tem sido de facto a minha vida. (risos) Pelo meio às vezes também faço vida saudável, na natureza. Mas até há relativamente pouco tempo era isso. E o gin tónico, ou a vodca ou o que fosse, não era nunca o último.

Mas fala-se também de outras coisas: a poesia, a amizade...

Sim, só não me vejo como um poeta. Isso é um bocado sacrilégio. À minha maneira, escrevo o que penso, o que me vem da imaginação, e organizo-o muitas vezes em forma de verso. Nem sempre, também tenho prosas poéticas. Mas basicamente são letras de canções. O Sérgio Godinho é escritor de canções, eu também sou escritor de canções. Não me posso comparar com o Herberto Hélder.



Lembra-se de conhecer o Sérgio Godinho? Será uma das suas amizades mais duradouras...
Duradouras e antigas, se bem que tenho amigos mais antigos. No meio da música, logo a seguir ao 25 de Abril, as pessoas que estavam fora, como o Sérgio, o José Mário Branco e muitos outros, começaram a voltar e inevitavelmente encontrámo-nos. Eu já era “estudante” do trabalho do Sérgio Godinho, do José Mário Branco, do Fausto, do Vitorino… há um grupo de pessoas que foram meus mestres, sem o saberem. Inicialmente o Sérgio não me conhecia de lado nenhum, eu também não o conhecia pessoalmente, mas os seus dois primeiros álbuns e os primeiros do José Mário Branco... eu estudei aquilo, absorvi, analisei a forma de escrever palavras e não só… foram grandes influências na minha vida. Quando voltei da Dinamarca depois do 25 de Abril, o primeiro apartamento que aluguei era na Parede, e fomos corridos por causa do barulho. Depois, no Príncipe Real, aconteceu a mesma coisa. Isto com atrasos no pagamento das rendas. (risos) Penso que foi quando morava na Travessa do Noronha, no Príncipe Real, que o Sérgio foi lá ter, não sei se levado pelo Pedro Osório ou alguém com amigos comuns, e foi o início de uma grande amizade. Ao meu segundo álbum, já faz um dueto comigo. A partir daí, ele convida-me e eu convido-o, seja para espetáculos, discos… e fiz uma grande tournée com ele, uma coisa bem trabalhada, com uma super banda que integrava músicos que o acompanham e que me acompanham a mim. Andámos um ano e tal a tocar em todos os sítios onde merece a pena tocar.


Qual a pedra de toque da vossa amizade? Aquilo que mais vos une?
Foi a última pessoa com quem estive antes do confinamento. Há muitos anos que moramos relativamente perto; ele mora junto ao Largo do Rato, eu moro na Artilharia 1. No meio temos o Jardim das Amoreiras, que tanto ele como eu frequentamos. Lembro-me que antes de 18 de março, na véspera ou assim, bebemos uns chás e uns cafés e estivemos a conversar. Não sei, eu entendo-o. Ainda hoje aprendo muito com o que ele escreve, e ele também aprecia o meu trabalho. Pessoalmente, funciona! Andámos muito juntos em 2015, 2016 e ainda em 2017, na estrada. Primeiro em ensaios, na minha casa e na casa dele, a esboçar, a planear. Foram tempos de intenso convívio. E agora, de vez em quando às três da manhã estamos a falar ao telefone. É muito bom. “É tão bom…” [começa a cantar 'É Tão Bom', de Sérgio Godinho]



No documentário “Vejam Bem”, diz-se que teve uma educação bastante religiosa...
Não diria bastante religiosa, não fui um beato. Mas acontece que os meus vizinhos de baixo, um casal, eram muito religiosos. A minha mãe dizia que era católica mas não punha os pés na igreja para ir à missa. Visitava igrejas e catedrais, quando viajava… Mas não foi ela que me puxou para a religião católica. Foram os meus vizinhos, que eram quase uns segundos pais. E a partir dos 6, talvez, comecei a frequentar a catequese e a ler e a ler coisas mais profundas, sem ser os bonequinhos dos cowboys. Comecei a pensar pela minha cabeça e a conjeturar, em relação ao espaço, ao tempo, à eternidade. A vida depois da morte, o céu, o inferno. Quando fui para o Liceu Camões, já não tinha convicção nenhuma. Com 11 anos já não ia à missa… mas [o meu amigo], o senhor Ami, como o batizei, ainda me convenceu a fazer a primeira comunhão, aos 12 ou 13 anos. A partir daí já não tinha fé nenhuma. Pelo menos no modelo que nos é apresentado, de Deus e da Santíssima Trindade. A Bíblia é um grande livro, o Antigo e o Novo Testamento são grandes livros de aventuras. (risos) Mas não tenho fé. Respeito as fés. Acho que a fé é um grande utensílio para as pessoas, um grande apoio para muita gente, mas também está na origem de muitas guerras, de muita carnificina, sobretudo no envolvimento com a política.


O piano foi também uma constante na sua vida desde muito cedo...
O piano foi uma constante, nunca deixou de ser, mesmo naqueles anos em que andava na estrada - aí era a guitarra a minha companheira. Mas nunca perdi o piano de vista. Sempre que encontrava um piano, em qualquer parte do país, em casa de quem fosse... Quando comecei a baldar-me e me virei para o rock ‘n’ roll, aquilo que tinha aprendido até ali, que estava ao nível do terceiro ano de Conservatório, não esqueci. E depois, já por vontade própria, resolvi continuar e terminar os estudos.

Que acabou aos 40?
Que acabei aos 40. (risos) As aulas de piano são individuais, mas havia cadeiras de aulas coletivas - formação musical, acústica, história da música, composição... E a algumas eu não podia ir, porque continuei a trabalhar sempre, a dar concertos e fazer discos. Mas quando eu faltava havia sempre colegas que me passavam os apontamentos da aula a que eu não tinha ido. Era sempre o mais velho das aulas todas. (risos) Mas não o sentia. O espírito era aquele: aprender. E esses anos foram maravilhosos: os professores, o convívio. A aprendizagem. Eu sempre gostei de aprender e continuo a gostar.


Tem memórias muito remotas do piano?
Sim, cresci com o piano à beira do berço. Desde que comecei a subir para o banco do piano que foi um brinquedo para mim. Era dos meus brinquedos preferidos.


E foi sempre uma relação prazerosa? Muitas vezes, quem se dedica muito intensamente a um instrumento ou a uma modalidade desportiva sente-se algo aprisionado...
Por isso é que eu tive consciência, por volta dos 14 anos, que não ia ser um solista de concerto. Esse pessoal sofre muito! Eu nunca tive um esquema de disciplina… não dava com o meu feitio estar 8 ou 10 horas por dia agarrado ao instrumento. Se bem que, quando participei num concurso integrado nos festivais da Juventude Musical, em 1962, ganhei o segundo prémio no grupo até aos 12 anos . Foi em Palma de Maiorca, esse festival, e durou 8 ou 10 dias. Sei que fiquei fascinado. Pedia autógrafos aos pianistas e maestros e vim de lá naquela: “vou ser maestro!” Qual quê. (risos) Aos 14 anos, quando deixei o Liceu Camões e compulsivamente fui para um colégio interno, já sabia [que não aconteceria], e quando voltei aos estudos, nos anos 80, sabia que nunca iria ser um pianista profissional de concerto. Eu sabia a disciplina que isso implicaria e que não iria ser um solista nem fazer concertos com orquestra. Dá-me muito gozo tocar e deu-me muito gozo aprender peças difíceis do curso superior de piano, que implica que, no final, tenhas [de tocar] três prelúdios e fugas de Bach, um concerto - eu escolhi um concerto do Mozart, integral -, peças difíceis de Liszt, Rachmaninov, Scriabin, estudos de Chopin... Safei-me bastante bem nos exames. Lembro-me que, no [teatro] São Luiz, decidi tocar uma peça de quase 6 minutos do Liszt. Claro que dei pregos. Mas este espaço de tempo, este momento é meu. Aguentem-se! E mais recentemente, na comemoração dos 25 anos do meu álbum “Só”, fiz uns concertos - dois na Casa da Música, dois no CCB, dois no Convento de São Francisco - e nesses seis concertos, decidi que 20 minutos [do espetáculo de mais] de duas horas, em que estava sozinho em palco, seriam ocupados pela minha interpretação de uma sonata de Beethoven. Os três andamentos. Claro que me enganei, várias vezes, houve quem se calhar tenha ido fumar um cigarro. (risos) Mas levaram com aquilo e depois passei outra vez para as minhas músicas. Dá-me gozo!



Disse que foi “compulsivamente” para um colégio interno...
Sim, já estava quase a falhar pela segunda vez o quarto ano do liceu.

Foi na altura em que o seu pai o foi buscar ao Algarve, onde estava a tocar com uma banda em bares?
Não, aí o meu pai e a minha mãe decidiram em conjunto. Ninguém tinha mão em mim. A minha salvação seria ir para um sítio onde houvesse alguma disciplina. E havia muita disciplina no Colégio Interno das Mouriscas, [dirigido pelo] doutor Santana Maia, uma excelente pessoa, mas com mão… um pulso, não direi de ferro, mas muito firme. E isso foi muito importante para mim.


Quanto tempo lá esteve?
Três anos e tal. Nas férias da Páscoa, eu era suposto acabar o 7º ano, ou seja, o curso de liceu. Vou passar uns dias ao Algarve e encontro uns músicos que eram de Santarém, por acaso. Tinham uma banda, precisavam de um teclista e eu disse: “OK, contem comigo!” Arranjou-se uma pianola e fiquei com eles até ao fim do verão; muita coisa aconteceu nesses meses. No fim do verão, quando o turismo estava já a esmorecer, as coisas não estavam a correr tão bem, economicamente. E é aí que o meu pai aparece sem avisar, como cliente no sítio onde eu estava a tocar, que estava às moscas. Estava a cantar uma música do Otis Redding e reparo: “olha o meu pai e a minha madrasta!” E ele, muito calmamente, disse-me: “pensa na hipótese de acabares o sétimo ano. Vens viver connosco…” Eu pensei dois dias e aceitei a proposta. Acabei o sétimo ano e andei na Faculdade de Ciência quase três anos. Mas não passei do segundo ano, já tinha cadeiras atrasadas. Comecei a deixar de ir às aulas. Coincide com a altura em que conheço o José Carlos Ary dos Santos, através do Fernando Tordo, que me deu o número de telefone dele, e isso é também um marco… foram tempos muito bons de aprendizagem, de convívio. [O Ary dos Santos] de facto o meu mestre no que diz respeito a articular as palavras. Acentuações, prosódia, métrica, foi um excelente mestre. Depois segui o meu caminho…


E o seu pai ficou contente?
O meu pai ficou contente na altura, claro! Depois deixei de ir às aulas na faculdade… mas já sabia que ia ser músico. Sem rede. E não me tenho dado mal. (risos)

Em que curso entrou?
Fui para a faculdade de ciências, mas para o curso de Engenharia Eletrotécnica. Se tivesse feito as cadeiras e entrado no terceiro ano, teria ido para o [Instituto Superior] Técnico. Mas isso não aconteceu. Eu estava a marimbar-me para as aulas. E como faltava muito e não estudava... cadeiras como a Matemática, se não vais formando uma pirâmide sólida, chegas até certo ponto e já não percebes o que estás a fazer. Isso aconteceu-me com as integrais.


Em tempos disse que não se considera panfletário e nunca teve paciência para pertencer a qualquer partido. É por isso que a sua música é considerada menos política que a do José Mário Branco ou até do Sérgio Godinho?
Isso foi uma coisa que aprendi antes do 25 de Abril, com o Ary e muitos outros, que escreviam nas entrelinhas. Prefiro ser subtil, sem mencionar necessariamente determinado facto ou acontecimento, ou o estado das coisas. [Prefiro] referi-los, integrando-os na história ou na canção.

Uma das palavras que usa mais em entrevistas é "resiliência". É uma virtude importante para si?
Agora usa-se muito [essa palavra]! Há uns anos usava resistência, perseverança, persistência, teimosia... Mas sim, sou uma pessoa resiliente e tenciono continuar a ser. Há valores que, a partir do momento em que qualquer ameaça os ponha em causa, arranjo maneira de ultrapassá-las.

Como a liberdade?
Toda uma série de valores que me foram incutidos desde muito jovem. E que estão entranhados em mim, fazem parte do meu subconsciente e do meu inconsciente. A liberdade é um deles, sim.



O grande êxito que obteve com 'Encosta-te a Mim', em 2007, surpreendeu-o?
Surpreendeu. Desde o primeiro álbum que me habituei a não ter muitas expectativas e a não antecipar nada… Essa canção esteve para não entrar no álbum ["Vôo Nocturno"]. Eu achava que era uma balada, que estava gira… Mas amigos meus, como o Rui Veloso, o João Gil, o Tim, pessoas com quem na altura estava a trabalhar, no [grupo] Rio Grande, e com quem estava quase todos os dias, ouviram a canção e disseram: “és uma besta, tens de meter essa música no álbum”. E de facto aconteceu aquilo. Mas não vale a pena a gente pensar: “isto vai ser um êxito”. Qual quê!


Fez parte do Rio Grande, dos Cabeças no Ar, do Palma's Gang... também é um bom jogador de equipa?
Acho que sim, que me integro. Grande jogador não sei. É impossível dissociar da bola. (risos) Eu joguei à bola, claro, como todos. Mas o futebol não me interessa particularmente. Mas entro no espírito das pessoas com quem estou a tocar e vice-versa. Tenho feito muitas brincadeiras, muitas jam sessions e gravado discos [com outras pessoas].
 

 

 

Ainda se considera "o músico mais perdoado de Portugal"?
Isso era o Zé Pedro que dizia! Não sei se o termo será perdoado. Acaba por ser mais compreendido… Os meus excessos, por exemplo: toda a gente tem defeitozinhos, excessos ou tendência para determinada coisa. Eu acho que as pessoas compreendem. E percebem que eu estou ativo e vou fazendo coisas engraçadas. E com um certo conteúdo. E que sou honesto no meu trabalho. “Oh Palma, tu és o artista mais perdoado em Portugal!”. Acho piada a isso. (risos)

É uma boa frase....
Já dei muita bandeira! Mas acho que há cumplicidade [do público]. As pessoas também são, de certa forma, cúmplices do meu modo de estar, um bocado para o exagero. (risos)

 

Para terminar: é mais cabeça ou coração?
A cabeça é fundamental. Tudo passa pela cabeça. O coração eu não controlo. Não quer dizer que controle a minha cabeça, que isto é muito complicado. Mas as zonas do meu cérebro às quais tenho acesso... tento racionalizar, faço todo o possível para entender o que está a acontecer. O cérebro é extremamente importante. Sem coração, obviamente que não há vida. Mas eu não o controlo. Sei lá se daqui a bocado vou apaixonar-me por algo ou por alguém. “Coração que não controlo...” Há uma canção da Amália escrita por ela que é mais ou menos isso (risos). O coração eu não controlo: deixo-o exprimir-se, deixo-o respirar.


A BLITZ agradece ao Museu da Água pela cedência das suas instalações para a realização desta entrevista



Fonte – Blitz  







23 outubro 2020

Rui Nabeiro

 



Foram mais de duas horas de conversa entre avô e neta. Às muitas perguntas que levava preparadas, Rita Nabeiro foi acrescentando todas aquelas de que se foi lembrando – até as mais difíceis.

22 out 2020, 11:26


É a primeira vez que conversamos com um gravador à frente. Deixa-me começar por te perguntar: o que é que esperas desta entrevista?
O que espero é que traga algum ensinamento de parte a parte. Encaro com muita naturalidade falarmos de nós: eu poder falar de ti, e tu dizeres o que pensas do avô. É uma coisa maravilhosa. É uma mudança para acompanhar o mundo que está a mudar.

Em 89 anos de vida viste muito. Dizes que o mundo está a mudar. Em quê?
O mundo mudou, realmente, e mudou mais ainda para nós que somos do interior. A diferença é enorme: o conhecimento chegou aqui e atualmente o interior está à altura do litoral. Mas ainda é preciso mais, continua a haver esquecimento em relaç̧ão aos que vivem abaixo dos outros. É um termo que não gostaria de aplicar, mas é o termo certo: há quem viva ainda abaixo dos outros. Nos anos 40, tinha eu nove ou dez aninhos, não existia aqui no Alentejo vida para viver. Existia vida de passar o tempo trabalhando e lutando, sempre para alguém que não nos reconhecia. Hoje isso não acontece assim, há uma melhoria extraordinária. As pessoas mais humildes aqui de Campo Maior trabalham, mas também vivem. A maior mudança é esta: começámos a ser mais humanos.



Entrevistado com a entrevistadora ao colo, nos anos 80.


Em Campo Maior estamos muito próximos da fronteira. Como foi viver aquele período conturbado da história de Espanha, nos anos da guerra civil? [NA: a guerra civil espanhola teve início em 1936 e terminou em 1939, quando Rui Nabeiro tinha oito anos.]

Da guerra civil espanhola, lembro-me bem de ver as pessoas que andavam fugidas serem presas e metidas ali na esquadra da polícia, e depois serem levadas à noite num camião para a praça de touros de Badajoz. [NA: em agosto de 1936, após a derrota das forças republicanas na Batalha de Badajoz, as tropas nacionalistas do general Franco executaram milhares de pessoas na cidade, naquilo que ficou conhecido como o Massacre de Badajoz.] Nós ouvíamos os gritos das pessoas, tanto das que estavam presas como das que estavam de roda do recinto a gritar pelos seus, que quando desciam dali era para serem convidados ao suicídio. Mesmo sendo uma criança, assistir àquilo marcou-me. Tenho aqueles sentimentos cá dentro.

E foram difíceis também os anos do pós-Guerra. Nos anos 40, em Campo Maior, as pessoas viviam voltadas para Espanha, portanto, nesse período viu-se a maior miséria de todos os tempos: não havia trabalho, nem comer, nem coisa nenhuma. Como é que aparece a comida? Aparece com o tio Joaquim, que montou umas barracas ao longo da fronteira, e ali vendia açúcar, massa, arroz, feijão… Ali fez vida e foi notado.

Falas muitas vezes do tio Joaquim. Qual foi o papel dele no teu percurso?
Nasci, cresci e fiz-me homem na sombra do meu tio Joaquim. Deixou-me trabalhar e deixou-me ter ambição. A vida é bonita quando as pessoas têm ambição. Aqui há uns anos, a ambição era vista como um defeito, mas não, é uma virtude. O que é preciso é que essa ambição não seja individualista, mas sim virada para a comunidade.

O meu tio Joaquim foi um homem de audácia que, quase analfabeto, aprendeu sozinho a escrever o seu nome. Era um homem inteligente e trabalhador. Éramos muito diferentes por uma razão: ele sentia menos do que eu. Ainda jovem, eu dava-lhe algumas lições. Ele queria sempre mais das pessoas, e eu, com 15 ou 16 aninhos, já lhe dizia: “Chega.” Uma vez, disse-me: “Quem manda aqui sou eu.” E eu: “Não estou a mandar, estou a dar um conselho.” Ele tinha uma tal ambição de trabalhar, de lutar, de conquistar… Mas é preciso saber conquistar, e ele às vezes não sabia. Quando havia alguém que nos dificultava o trabalho, o tio ficava irritado. E eu dizia: “Não, vamos conquistar o homem, vamos falar com ele e trocar impressões, ele há de gostar de nós e nós dele.” E foi sempre assim.

Tu demonstraste desde pequeno qualidades de liderança. A bisavó, tua mãe, dizia sobre ti: “O Rui faz.” Aprende-se a ser líder ou nasce-se com essa capacidade?
Tenho dificuldade em dizer que é de uma forma ou de outra. É excelente poder-se estudar, mas um líder que não tenha estudos é capaz de liderar, enquanto alguém que tenha estudado liderança precisa igualmente de ter em si uma herança familiar que lhe tenha transmitido o que significa ser líder. Foi o que me aconteceu a mim. As carências que eu via despertavam-me a vontade de ajudar, porque com a minha quarta classe já podia dar alguma formação a quem mal sabia assinar o próprio nome.

 

Rui Nabeiro em criança.


O meu pai, o bisavô, aprendeu na tropa a escrever o seu nome; mas ficou logo ali comprometido com um coronel que lhe facilitava a vida, teve de ir trabalhar fora, era motorista, e levou um monte de anos com uma vida de sacrifício, tanto que nós mal o víamos. Essas circunstâncias fizeram-me ganhar capacidades de liderança, porque em casa estava a bisavó, primeiro com cinco, e depois com quatro filhos pequenos. Éramos dois rapazes e duas raparigas, todos fizemos o nosso caminho. O tio António foi trabalhar como empregado dos outros: foi ajudante de merceeiro e de sapateiro. E o que é que eu queria ser? Empregado, não queria! Não queria porque realmente via que o tio António era aprendiz de sapateiro, mas não ganhava nada. O próprio patrão recebia pouco e não tinha nada para lhe dar. E eu tinha um bocado de ambição pelo dinheiro. E tenho. Portanto, fui cavar para dentro da fábrica do tio Joaquim. Deixaram-me cavar e cavei.

É curioso que tenhas passado a infância a trabalhar e que depois acabes por criar o Centro Educativo [Alice Nabeiro], onde dás oportunidade a muitas crianças para brincarem. Querias dar-lhes uma oportunidade que não tiveste?
Essa é uma das razões. Se eu não tivesse começado quase de criança a ter tantas responsabilidades… Quem chegou à quarta classe também chegava mais à frente. Agora, uma pessoa que tem o que lhe faz falta, como eu tenho, não tem o direito de dizer: “Se eu tivesse estudado mais…” Não, eu estou tão agradecido à providência! Espero que a nossa empresa seja sempre melhor e maior, isso é uma ambição normal; mas, se com a quarta classe consegui chegar até aqui, só tenho de estar feliz.

O Centro já tem dez anos e não havia nada do género em Campo Maior. Isto foi motivado por um querer, uma ambição de fazer melhor e de esbater as diferenças entre classes, porque a vida é dura para muita gente. Em Campo Maior, uma grande parte das pessoas está a viver razoavelmente bem, se bem que há ainda casos… Casos esses a que vamos dando um toquezinho. Mas mesmo as pessoas mais humildes estão razoavel- mente bem. Foi com isso que sonhámos, nós todos.

Apoias muitas causas e muitas pessoas. Como é que decides a quem dás ajuda? Eu própria já recebo muitos pedidos de ajuda e nem sempre é fácil.
Uma coisa que o avô faz é nunca dizer a ninguém que não. Às vezes, isso traz-me amarguras, mas é o melhor conselho que te posso dar: nunca dizer que não. Algumas vezes as coisas acabam por nem chegar a acontecer, mas um não, para quem está angustiado, é muito duro. “Apareça cá que a gente depois fala” é um sinal de esperança, e a esperança é a coisa mais bonita que pode haver no mundo. É o conselho que te posso dar, é rápida a resposta, mas…

…Mas é boa. Em conversa com o Emídio, o motorista, soube de uma pessoa que te vinha pedir dinheiro. Um dia chegaste ao pé do Emídio e disseste: “já ganhei dinheiro hoje”. Lembras-te disso?
Ah sim, é verdade! Era um tipo a quem não podia dizer que não, vamos lá ver, já me tinha dado muitas provas de amizade. Na altura era muito dinheiro, eram 100 mil escudos, e ele veio falar comigo muito aflito. Eu dei-lhos, e quando cheguei ao pé do motorista, disse: “Bom dia que tivemos hoje, já ganhei 100 contos!”. Eu estava à espera de que ele me pedisse 200, e afinal só me pediu 100. Ganhei o dia! [Muitos risos.]

Que valores são mais importantes num líder?
A minha forma de liderar consiste em conquistar as pessoas naturalmente. Não é comprando, nem dificultando. É conseguindo que as pessoas nos reconheçam com amizade. Isso conquista-se pela nossa atitude, por saber estar na vida e saber ver como o outro nos lê. O avô tem tido a felicidade de liderar assim.

Como foram os primeiros tempos a bater a portas e a ouvir “nãos”? Quando ainda ninguém sabia quem era o Rui Nabeiro?
“Nãos” ouvi muitos, mas nunca desisti. Tinha era de pensar como é que fazia a concorrência e como é que eu havia de fazer. Foi assim que mudei o sistema de comércio: percebendo que a concorrência não se deslocava até aos clientes, não lhes dava assistência nem crédito. Eu estudei aquilo tudo e percebi que havia ali uma falha. Aos poucos e poucos começámos a vender porque facilitávamos o crédito, as máquinas, as entregas do produto eram à porta de casa… Se deu prejuízo? Deu. Mas depois deu dinheiro. Um desses dias, um deles [da concorrência] disse “olha que o Nabeiro está a caminhar” e o outro respondeu-lhe “não, esse é do Alentejo, esse anda devagar”. Mas quando se foram a benzer, já estavam benzidos. Já tinha ficado algum dinheiro pelo caminho.



O fundador da Delta demonstrando no terreno a sua filosofia “um cliente, um amigo”


Como foi o momento em que decidiste abrir o teu próprio negócio?
Comecei a construir a Delta nos anos 60. Na Camelo olhávamos para o mercado espanhol com incerteza, porque as situações políticas dos nossos países eram instáveis. E eu queria ser independente, tinha mais sonhos. Nunca deixei a Camelo, levantava-me às quatro da manhã para trabalhar do outro lado. Mas não há dúvida nenhuma de que quando uma pessoa acredita que é capaz de fazer, pois faz. É assim, seja em que negócio for.

De onde tiravas as ideias?
Sonhava-as. E nunca ficava em casa. Onde quer que houvesse uma feirinha ou coisa parecida, eu caminhava para lá: Paris, Milão, Alemanha, Espanha. Vi muitas coisas no exterior que trouxe depois para cá. As ideias também nascem daí, de ver muitas coisas e falar com muita gente. A pessoa que é humilde ouve e regista, tanto que eu ando sempre com um papelinho para apontar.

E és conhecido por deixar post-its por todo o lado.
É a minha doença de tomar notas, mas notas que depois têm seguimento. Se abrir o meu bloco, há muitos papelinhos. Olha, aqui estão eles! [Risos.]

E além do bloco e dos post-its, usas o relógio e o iPad. Como vês o avanço da tecnologia?
A grande evolução que vemos hoje aconteceu nas últimas décadas, nós é que não demos conta da rapidez do avanço tecnológico. O Homem só tem a beneficiar. Robôs já nós temos há muitos anos e nunca retirámos por isso nenhum posto de trabalho, pelo contrário, aumentámos os postos de trabalho. A tecnologia serve para valorizar as pessoas e para atingir novos níveis de perfeição. A década de 2020 será grandiosa, mas a de 2030 será mais ainda, e por aí fora.

Algum dia pensaste em reformar-te? Eu sei a resposta, mas…
Nunca, reformar-me seria tornar-me inútil. Serei inútil quando cá não estiver. Agora, se Deus me der alguma falta de motivação ou de saúde, isso já não está nas minhas mãos. Se estiver nas minhas mãos, trabalho e dou espaço para trabalhar. Posso aconselhar, mas não dificulto; estou na minha casa, mas sei estar na minha casa. Agora dei mais espaço ao pai e a todos vós, não é verdade? Mas continuo a vir trabalhar, vivo aqui a dez metros, é só atravessar a rua. Começo cedinho e sempre a funcionar com a mesma ambição.




Como conheceste a avó Alice?
Conhecemo-nos na escola primária, na quarta classe. Não havia turmas mistas, mas uns professores modernos fizeram aquele cambalacho, e foi com 9 ou 10 aninhos que começámos a namorar, aliás, a dizer que namorávamos! E foi até hoje. Já fazemos 67 anos de casados. Fui um privilegiado. Ela agora está doentinha e eu tenho a obrigação de não a largar e de estar o máximo de tempo possível com ela. Ela era uma companheira a sério, completava-me a vida. E soubemos sempre respeitar-nos.

Além de conheceres a avó na escola, conheceste também o teu sogro…
Ah, sim! É verdade! O meu sogro precisava de fazer a quarta classe, que não tinha, para poder entrar nos quadros da empresa, então lá veio ele para a minha carteira. É assim uma história muito grande, nunca mais acaba! Ficámos mesmo com amizade.

Achas que tens mais ou menos proximidade connosco, filhos e netos, do que tinhas com os teus pais e avós? Eu trato-te por tu, por exemplo, o que há uns anos podia ser visto como falta de respeito. Como vês estas mudanças?
Nunca tratei os meus pais por tu porque ninguém tratava, mas havia carinho. Hoje em dia, os meus filhos dizem “o pai”, que não é peixe nem é carne, e vocês tratam o avô por tu. São as duas coisas assim mescladas, como dizem os espanhóis. Havendo sinceridade entre as partes, não é menos saudável. Porque realmente há troca de intimidade, de proximidade.

Lembro-me de a tia Helena uma vez dizer que tinha uma irmã que era a Delta. Achas que às vezes deste mais atenção a um filho do que aos outros? Imagino que esta seja uma pergunta difícil…
Não é difícil, até gosto dessa pergunta. Realmente, fica muito bem gostar mais da Delta, porque ela deu-nos bem-estar a todos. De qualquer forma, não fico bem com a minha consciência dizendo que é uma coisa, quando a outra também o permitiu. Nós temos todos de venerar a Delta. Posso dar-me o privilégio de responder “Delta”, porque vocês a veneram em conjunto comigo. No fundo, queremo-nos todos à mesma, da mesma forma. De maneira que a pergunta foi fácil.

Estava à espera dessa resposta. Há ainda algum projeto que sonhes fazer? Ou que queiras deixar-nos encarregados de fazer?
Para mim, o fim nunca é fim. É fim para quem vai andando, mas é princípio para quem começa. Eu tenho ambição para mais, mas o tempo não me permite e tenho de ter consciência disso. Nos últimos três anos, sonho fazer, mas deixo fazer. É esse o caminho de quem quer ficar em saudade na família. O avô tem esta tranquilidade toda a falar e fala sempre com carinho e atitude: o trabalho, neste momento, já não é meu; a minha ambição deve empurrar, mas não deve liderar. Devo deixar que os outros sejam líderes.

Tens sempre um jeito para responder sem me responder. Não queres partilhar qual era o projeto?
Tenho aí um projeto, mas queria vivê-lo em vida e a gente nunca sabe, com os anos que eu tenho. Tenho um espaço ali em frente ao hotel para fazer o meu espólio, que é maravilhoso. Esse é um daqueles projetos que está na minha mente. Temos ali milhares de coisas para escolher e para deixar à nossa terra.

No outro dia revisitei um livro em que, a dada altura, falavas do projeto dos vinhos. Tenho de puxar a brasa a esta sardinha… Aquilo já deve ter uns 10 anos. Dizias que eu já estava a trabalhar contigo e que vinha do marketing e da comunicação. Dizias: “eu digo-lhe que sim, mas que, para se fazer, tem de ser bem feito”. Explicavas que a área do vinho não estava ligada à nossa, a do café, e que tinhas decidido aventurar-te rodeando-te das pessoas certas. Olhando para trás, farias alguma coisa diferente neste projeto? Ou não o farias?
De forma nenhuma, pelo contrário. Fazemos sempre mais naquilo que pudermos. Naquela altura, já havia muito vinho e este era apenas mais um que aparecia. Mas o mundo do vinho ganhou com a nossa presença. Se não quisermos dizer isto, que pode ser um bocadinho duro, então eu digo que, se fosse hoje, fazia igual. E talvez fizesse melhor. A segunda fase, que lá estava desenhada, já estaria feita!

 



Há alguma pergunta que me queiras tu fazer a mim?
Uma vez que estamos a falar em vinho e que o avô abriu caminhos e pôs neles outras pessoas a caminhar… Para trabalhar bem é preciso ter visão e ser livre. Para ser livre é preciso criar um instrumento que funcione melhor. Porque se somos grandes numa coisa, podemos ser maiores noutra – podemos chamar-lhe “mayores”. Esta é uma questão, em que é a Adega Mayor que está em causa. Precisamos que cresça e que ali se faça algo mais. Outra pergunta é que, dado que temos todos uma boa relação e que estamos unidos, queria que, a cada dia, tivéssemos uma união ainda maior e pudéssemos fazer disto um exemplo para o futuro. Porque A nossa empresa, e não é por vaidade que o digo, é uma referência a nível nacional. Criámos riqueza em muitos sítios e, por isso, temos a obrigação de nos aperfeiçoarmos. E conversas como esta – que é para um trabalho, mas que no fundo serve para que possamos conversar – são importantes. Temos de fazer melhor, mas com a união acima de tudo, porque só assim chegamos longe.

Se estou a trabalhar aqui hoje, com a família, em grande parte devo-to a ti. Eu sei que ao início tu me olhavas com estranheza, sobretudo quando me vias chegar de ténis – e ainda hoje tenho uns sapatos esquisitos. E o facto de vir de uma área completamente diferente, ao princípio, fazia-nos sentir que não tinha o conhecimento necessário.
Isso ninguém tem antes de começar, não é?

O que me levou a vir trabalhar com a família foi poder aprender contigo, com esse teu lado humano. Para mim, esta empresa, perdendo os seus valores essenciais, deixa de ser o que é. Agora, obviamente, há coisas que temos de sonhar e acrescentar, como dizes e bem. Vamos a outra pergunta. Lembro-me de ser pequenina e de a fábrica estar a ser construída. Lembro-me de que, no sítio onde hoje é a fábrica, estava um monte tradicional alentejano. Eu nunca imaginaria que aquilo seria o que agora é. Hoje em dia, os teus bisnetos já têm 11 anos e qualquer dia já estão crescidos… Eu sei que tu não gostas de responder a estas questões…
Diz lá. Eu respondo a tudo!

É que tu vais dizer: “isso agora é para vocês”. Mas como é que tu imaginas a Delta daqui a 50 anos?
Esta herança obriga a uma atitude firme, rigorosa, forte e corajosa, para não se perder o espaço que tivemos a sorte de ter. Para isso, é preciso pensarmos e falarmos. Vocês ficam responsabilizados, que já estão, por manter o que há e crescer todos os dias, porque há espaço para isso. E aquilo que as pessoas dizem de mim também já começam a dizer de vós, não é verdade? O que eu desejo é que daqui a 50 anos, quando vocês já tiverem a minha idade, digam o mesmo que eu estou a dizer aqui nesta conversa aos nossos pequerruchos. Porque há família para isso.

 


A entrevista decorreu entre os escritórios da Delta e a casa de Alice e Manuel Rui Nabeiro, mesmo do outro lado da rua | Fotografia: Enric Vives-Rubio


Tenho 39 anos. Em que fase estavas tu aos 39? Que conselhos me dás?
Com os meus 39 anos, era uma pessoa realizada, ia a todas. Já tinha uma realidade em cima de mim, um caminho percorrido que me dava muita segurança, mas estava sonhando com mais futuro. E tu, com os teus 39 anos, também podes pensar sobre ti assim. É isto que posso dizer-te nesta entrevista aberta e franca.

Obrigada. Acho que podemos continuar depois a conversa, e vamos continuar certamente. Obrigada.

Esta entrevista foi originalmente publicada no 1.º número da revista DDD – Dê de Delta.