31 janeiro 2017

Maria João Luís


"Porque é que as pessoas vão ao teatro e no fim não ficam a discutir connosco?"






É uma enorme atriz, com o ar franzino de quem não consegue parar quieta e uma voz que pode ter todas as cores. Está em cena no Teatro S. Luiz, em Lisboa, com A Noite da Iguana, e é protagonista da novela Amor Maior da SIC

Maria João Luís é uma atriz com uma força e um talento que me deixam em estado de admiração total. Deixou para trás as Belas Artes a que pensou dedicar-se mas para as quais, garante, "não tinha jeito nenhum". Começou muito jovem a fazer pequenas atuações por bares e outros ambientes, quando frequentava a Escola António Arroio, e a atriz Maria do Céu Guerra reparou nela. Levou-a para A Barraca e Maria João nunca mais parou. Está neste momento em cena, no papel de Maxine Faulk, em A Noite da Iguana de Tennessee Williams, com os Artistas Unidos, ao lado de Nuno Lopes e Joana Bárcia, no Teatro S. Luiz, em Lisboa. Chegou pontual e, apesar de a entrevista ser marcada para uma manhã depois de uma representação, sem dar sinais do cansaço que a intensidade da peça faria pressupor. O calendário intenso das gravações da novela Amor Maior também não lhe dá descanso. Mas é nessa mistura da lentidão do teatro com a rapidez da novela que encontra o equilíbrio, ainda com tempo para o projeto Teatro da Terra, em Ponte de Sor, que partilha com o marido Pedro Domingos, especialista em luz.

Como é fazer Tennessee Williams, uma peça tão boa, tão rica, tão longa, tão cansativa?
É um prazer. O Tennessee Williams escreve de uma forma muito orgânica para o ator. É quase fácil entender o que ele quer através da forma como escreve, através da toada inevitável das frases. Quando lemos a peça apercebemo-nos imediatamente de qual é a intenção dele. Alguns autores são mais intrincados, é mais difícil lá chegar. Ele tem uma escrita que chega com muita facilidade à cabeça do ator. Daí eu não ver normalmente os filmes antes de fazer os espetáculos. Tinha uma memória de ter visto A Noite da Iguana e O Doce Pássaro da Juventude em cinema, mas procuro não ver porque tenho muito medo de ser influenciada e isso retirar-me a minha abordagem pura do texto.

A Noite da Iguana só foi feita uma vez em Portugal antes, não é uma peça que pudesse ter visto em Portugal por outros atores.
Não. Tanto n' O Doce Pássaro da Juventude como n' A Noite da Iguana, já depois de o trabalho estar mais seguro, de eu perceber bem qual é a zona que me apetece trabalhar daquele texto, vou ao filme. E é idêntico. Ou seja, as opções da atriz que faz este papel, a Ava Gardner neste caso, são muito idênticas. Porque está lá na escrita do Tennessee, é muito claro. Todas as nuances que vamos procurando na representação são idênticas, porque é ele que as põe lá. Não é muito comum, os autores normalmente não fazem isso.

Tinha lido o conto inicial, sobre uma fase em que ele passou uns dias naquele hotel Costa Verde, no México, numa situação de grande fragilidade e solidão. Ele escreve a peça uns anos depois mas está sempre a mudá-la, quando já está a ser representada.
Ele vai rescrevendo. Era um autor bastante assim, tinha alguma ansiedade e nunca estava satisfeito. Ele ia mudando, e penso que não foi só n' A Noite da Iguana, penso que fez isso noutras peças. Esta é a peça que acaba a grande carreira dele como autor. Para mim, é talvez a que eu prefiro em termos de texto, da maneira como ele fala das suas personagens, da forma como ele as defende. Há muita gente que diz que o Tennessee Williams trata um bocado mal as mulheres nas suas peças, mas vejam a forma como ele defende estas mulheres, defende as personagens, no fundo. Todas elas, n' A Noite da Iguana. A liberdade de cada uma destas pessoas, a sua luta pela sua liberdade, o seu conflito para se libertarem, para serem livres. Acho que isso está nas três personagens principais. E quero aqui elogiar brutalmente o trabalho dos meus dois colegas - de todos os colegas deste espetáculo, mas das pessoas que têm mais responsabilidade - a Joana Bárcia e o Nuno Lopes. São dois atores maravilhosos, de uma seriedade incrível, e é sempre muito prazeroso trabalhar com pessoas que têm uma seriedade tão grande no seu trabalho.

Deve haver um desgaste físico brutal. O espetáculo dura três horas - duas horas e 40, como intervalo. É muito intensa a vossa entrega.
Sim, exige bastante concentração.

E tem muito texto.
Começo a notar isso. Dantes tinha uma memória que não me deixava notar. Aliás, fiz um monólogo, não sei se tem ideia, de 1h45, não me calava o tempo todo, no Stabat Mater [de Antonio Tarantino]...

...mas alguém pode esquecer-se de ter visto o Stabat Mater feito pela Maria João Luís? É impossível.
Decorar aquele texto para mim era manteiga. Agora já não é bem assim. Pela primeira vez, n' A Noite da Iguana tive a sensação de que isto já não vai lá com a mesma facilidade. E o texto não é fácil, é complicado de decorar.

Tem imensas nuances.
Para se chegar o mais perto possível do resultado final, foi um trabalho difícil, complicado, a tradução foi sendo revista ao longo do processo. O Jorge ia revendo...

... o Jorge Silva Melo?
Claro, o grande Jorge Silva Melo.

Com quem tens trabalhado ao longo da vida. Os três atores estão quase sempre em cena. Como ensaiaram? O autor mudava o texto todos os dias e entregava a nova versão ao meio-dia. Seria possível fazer isso contigo?

Eu sou muito permeável a essas coisas. Gosto de tudo o que seja novidade, gosto de coisas que me ponham à prova, e sempre fui assim. Ainda continuo.

E se estivesse o próprio autor ali?
Trabalhar com o autor seria extraordinário.

Como ensaiaram?
Ensaiámos por partes. O espetáculo tem muita gente em cena, e outros atores também extraordinários como a Isabel Muñoz Cardoso, a Catarina Wallenstein, e muitos outros - mas a alguns o Tennessee Williams deixa-os um bocado pendurados. Estão ali umas pessoas...

... uns alemães...
... uns turistas alemães que aparecem, e uns empregados da Maxine que serão meio-amantes, meio-empregados. Estão para ali esparramados no chão durante 2h40 e não dizem nada, riem-se, fazem umas contracenas. Era escusado pôr aquelas pessoas todo o tempo a ensaiar connosco. Os "alemães" chegaram muito perto da estreia e os empregados mexicanos também. Ensaiei sobretudo com o Nuno Lopes numa fase, porque nós temos mais responsabilidade na primeira parte do espetáculo, e depois com a Joana um bocadinho mais tarde. Depois juntámos tudo.

Quando chega a estreia, o que foi feito para trás aparece como?
Este espetáculo estreou de uma forma bastante segura. Normalmente as estreias são sítios de grande tensão e ansiedade, não se sabe bem como vai resultar. O Jorge trabalhou muito este espetáculo. Este espetáculo foi ensaiado, ensaiado, ensaiado, repetido, repetido, repetido. E tinha de ser assim, não havia outra maneira. Para ele chegar a este nível de satisfação dos atores e do encenador era preciso trabalhar muito. A dada altura perguntei-me - mas vamos fazer outra vez o primeiro ato, já fizemos isto duas vezes hoje, vamos fazer outra vez? Será preciso isto? Era preciso, era mesmo preciso. Porque havia sempre coisas que nos escapavam, que nos falhavam. E sobretudo para o Nuno, que tem um texto extremamente complicado. Ele está em cena do início ao fim e com uma entrega única. Sem desprimor para todos os colegas com quem trabalhei, é raro ver um ator a entregar-se desta forma. Isto coloca-nos a todos no sítio. A mim, que sou um bocado baldas, aquilo coloca-me no sítio.

Um bocado baldas?
Sou bastante baldas.

Fazes teatro, novela, cinema, e ainda tens o Teatro da Terra, e estás a dizer que és baldas?
Tenho medo de levar as coisas demasiado a sério. Há uma coisa na seriedade que é assustadora para mim. Se eu levo demasiado a sério, devo estar a estragar qualquer coisa, é o que eu sinto. Suspeito. Não sei bem explicar. Tem de haver sempre em mim um lado de "isto não tem importância". "Não há problema", como diz a Maxine. Há coisas muito mais importantes na vida do que isto que estou a fazer, momentos e coisas gravíssimas, e agora tudo o que se está a passar no mundo. O que estamos a fazer tem para mim a importância de ser a minha escolha.

Porque ser atriz foi uma escolha?
Sim, uma escolha que eu levo a sério na medida daquilo que é a minha possibilidade de entrega.

A propósito de capacidade de entrega poderia falar do filme da Patrícia Sequeira...
... Jogo de Damas...

...que teve uma carreira curta nos cinemas mas que teve
...muito impacto...

...até pela maneira como as atrizes interagiam. E fazes também novelas. Estás a fazer o Amor Maior. Há uma grande diferença? O teatro é feito no momento, no palco, não dá para voltar atrás, repetir. No cinema ou na novela pode-se sempre repetir.
Há diferença embora haja uma coisa comum: a atriz é a mesma. No teatro há tempo para trabalhar cada gesto, cada movimento. Por acaso, falei com o Nuno e a Joana sobre a intuição e a forma como o ator aborda as coisas. Há atores mais intuitivos, atores menos intuitivos, e estes são chamados de mais cerebrais. Sempre me disseram que eu era uma atriz intuitiva. "Você tem uma intuição incrível, chega muito rapidamente às coisas através da sua intuição".

E é verdade?
Não sou nada intuitiva, sou muito mais cerebral. O teatro para mim é fantástico porque escolho cada momento, aquilo não é à toa. A intuição ajuda, como é evidente, e está lá, mas é usada depois de a matemática ser aplicada, e não o contrário. Eu até reservo a intuição e deixo-a ficar de lado um bocadinho, para primeiro usar a matemática. E só depois de isso estar tudo aplicado, então sim, entra a intuição - já em cena, já com o espetáculo a correr, já com o espetáculo seguro.

Porque podem acontecer imprevistos?
No teatro acontecem sempre. Aliás, é isso que depois mantém vivo o espetáculo. Em televisão, usa-se muito mais a intuição. Em televisão, há um tempo muito menor, mas no fundo não há uma grande diferença. Hoje, não se pode fazer novela e repetir uma cena dez vezes. Repete-se duas vezes e é preciso que tenha havido ali uma grande coisa. Não há tempo. Cada vez mais é a grande indústria, a grande máquina a fazer novela. Na Globo é igual, funcionam com outros horários mas é assim, e é o mesmo pelo mundo fora. Isto é uma indústria. Mas é interessante, porque se está sempre à procura de se fazer melhor. Mais rápido e melhor.

Disseste que a tua memória está a diminuir. Mas a fazer uma peça como esta e uma novela ao mesmo tempo, a memória tem de ser prodigiosa.
Tenho uma memória ainda boazita. Sobretudo, o que é interessante no trabalho da novela é a rapidez com que se chega à personagem. É horrível estar a dizer isto, vou ser linchada amanhã, porque toda a gente quer mais tempo.

Daremos a notícia amanhã do linchamento da Maria João Luís que acaba de dizer uma heresia.
É uma heresia mas é assim que eu sou. Do que eu gosto naquilo é exatamente da velocidade a que aquilo é feito, da rapidez. Do que eu gosto no teatro é do tempo para se fazer. Isto compensa-me de alguma forma. Por isso eu faço teatro, estou sempre a fazer teatro, não consigo deixar de fazer. Pior: eu estou cada vez pior.

Então?
Cada vez quero mais teatro. Mas também não deixo de gostar de fazer televisão. De alguma maneira isto me equilibra. Mas é perverso à brava porque trabalho muito, muitas horas.

E ainda há o Teatro da Terra. Como arranjas tempo? E em que consiste?
O Teatro da Terra é um projeto que comecei há cerca de sete anos, em Ponte de Sor, um projeto deslocalizado da capital, e é o teatro na terra, na perspetiva de todos os organismos culturais da zona e pessoas que queiram colaborar, fazer teatro, ter essa experiência. Integramos grupos amadores, corais polifónicos, orquestras de harmónicas, ranchos folclóricos. E fazemos espetáculos com muita gente, espetáculos de grande porte, quase eventos.

Em que se envolve...
...a comunidade. A comunidade que quer participar vai participar.

Como é que isso apareceu? Não és de Ponte de Sor.
Não sou de Ponte de Sor, tinha lá um monte. O projeto é engraçado. Nós vivemos lá durante cinco anos, depois os filhos começaram nas faculdades, viemos para Lisboa porque era mais fácil e eu não consigo não estar perto dos meus filhos. A ideia de um filho sair de perto de mim para vir para uma faculdade não estava a fazer sentido na minha cabeça, nem do Pedro que também está neste projeto. O Pedro Domingos, o meu marido, é a grande máquina do projeto, é ele que faz a produção e é o iluminador de A Noite de Iguana, é o iluminador do Jorge Silva Melo, trabalha com ele desde a fundação dos Artistas Unidos. Nós juntámos o útil ao agradável: vamos fazer um projeto os dois, além dos projetos que temos em comum na vida. E é muito prazeroso, adoro fazer. Porque eu acho que o teatro tem uma função social muito forte. O teatro ensina a estar com os outros. A discutir, que é uma coisa que cada vez se faz menos. Ainda ontem se falava sobre isso na sala antes de entrarmos em cena. Por que é que as pessoas vão ao teatro e já não discutem o teatro? As pessoas saem e nós ficamos tipo... e agora? Dantes não. Quando comecei no teatro - e comecei há muitos anos - havia sempre gente à porta à nossa espera para falarmos.

Quando o espetáculo termina, penso: eles devem estar estoirados, vou deixá-los descansar, mesmo que tenha perguntas para fazer e gostasse de ir conversar com eles. Para vocês não é assim? Seria agradável que as pessoas estivessem à espera e falassem convosco?
Um bocadinho. Para mim seria. Depois é quase uma grande solidão, fica um vazio, uma coisa estranha. Dantes falava-se imenso, havia muito aquela coisa de se sair à meia-noite e ir cear. Muita gente não comia antes dos espetáculos. Ainda hoje há muita gente que não gosta de ir para o palco com a barriga cheia. Ia-se cear a seguir. Era nessas ceias que se juntavam os amigos que tinham ido ver, as pessoas que queriam discutir o espetáculo. E ficava-se a falar até às duas da manhã, a discuti-lo mesmo.

E era frutuoso?
Muito frutuoso. Quando as coisas são discutidas avançamos sempre, aprendemos há sempre alguma coisa que depois vai passar de um projeto a outro. Alguma coisa há de ficar nas nossas cabeças.

Agora termina um espetáculo e vocês vão cada um para a sua casa?
Cada uma para a sua casa. E mesmo as próprias companhias discutem pouco umas com as outras. Fala-se pouco. As pessoas não gostam de ouvir críticas, cada vez se gosta menos. Cada vez há menos liberdade na crítica. E isto é uma coisa terrível, assustadora, não só no nosso meio, e no nosso meio se calhar até se sente menos do que noutros, há de haver outros em que isso ainda será pior. As pessoas têm medo de parecer mal. Então mas que raio de liberdade é a nossa? Que raio de coisa é esta que nos está a acontecer em que as pessoas têm medo? As pessoas têm medo. As coisas têm de ser cada vez mais politicamente corretas e isso é assustador. Nós sentimos isso nos finais dos nossos espetáculos. Imagino que se sinta muito mais nas grandes empresas, isso deve ser ainda pior.

Em Ponte de Sor conseguiste mudar isso, conseguiste pôr as pessoas a conversar?
Sim, e isso é muito importante, as pessoas conversarem e ao mesmo tempo conhecerem-se realmente nas suas fragilidades, nos seus medos. Não é fácil pisar um palco, há pessoas para quem pisar um palco é atirar-se aos leões. Há medo, é preciso ter lata.

Como é que se transmite isso a uma pessoa que vive em Ponte de Sor, que está habituada a fazer a sua vida do dia-a-dia e que de repente vai para um palco?
Falando da importância de mostrar aquilo que nós somos. O teatro é o que melhor te mostra o que tu és, o que é o ser humano, é efetivamente o teu espelho. Não o espelho em que te vês todos os dias, com os teus olhos, o teu nariz, a tua boca, mas o espelho que te mostra aquilo que o ser humano é, totalmente, nas suas fragilidades, nas suas forças. Nada te mostra melhor isso do que o teatro.

A Noite da Iguana é todo um texto sobre uma enorme solidão. Cada uma daquelas pessoas vive na solidão, à beira do desespero, e vai lidando com essa condição diferentemente. Tu és uma pessoa virada para os outros, com uma vida cheia de pessoas à volta. Já foste confrontada com uma situação de solidão?
Eu sou confrontada com solidão todos os dias, porque uma pessoa está só, inevitavelmente. As pessoas estão sozinhas. Temos um caminho que é traçado a sós. Não há outra maneira de dizer. Isso implica solidão sempre. Eu sinto muito a solidão e não é uma coisa que me desagrade, também é bom, faz parte. O caminho é solitário. Nasce-se e morre-se sozinho.

Quero voltar à questão de trabalhar com grandes atores. Como é que isso enriquece o vosso trabalho? A Bette Davis ensaiava esta peça num cubículo. A interação que ela não fazia é necessária?
A Bette Davis não fazia e muitos atores antigos não faziam, não contracenavam quase com os elencos, liam os textos sozinhos, com os assistentes. As primeira figuras só muito perto da estreia se juntavam ao resto do elenco. Mas é muito importante. Trabalhar com pessoas da qualidade intelectual e artística do Jorge Silva Melo e do Nuno Lopes, da Joana Bárcia, da Isabel, é extraordinário. Aprende-se muito. Eu aprendi imenso, muitíssimo, a trabalhar com o Jorge. E não só com aquilo que ele diz, é pela maneira como ele se coloca perante as coisas, é muito interessante.

Os Artistas Unidos existem há tantos anos e não têm um espaço próprio.
Têm um espaço pequenino da Politécnica e têm de pagar imenso dinheiro por aquilo. O Jorge agora pôs umas imagens [no facebook] e aquilo está a meter água por todo o lado. É muito triste a situação da cultura neste país. Estão a dar-nos esperança, a dizer-nos "agora é que vai melhorar". Eu quero acreditar que sim, tenho alguma esperança nestas pessoas.

Ainda há pouco tempo houve o episódio do fecho da Cornucópia e apareceu toda a gente a querer salvar a Cornucópia.
Todo esse episódio foi muito triste, tristíssimo. Como é que é possível que uma pessoa como o Luís Miguel Cintra, ao fim de 40 anos, encerre a sua companhia crivado de balas e flechas e controvérsia? Merecia fechar aquilo em paz. E todos os disparates que se disseram, mesmo pessoas do teatro decidiram atacar uma coisa que não é atacável. Em sítio nenhum do mundo seria atacável.

Tu passaste pela Cornucópia.
Passei sim. São dos maiores do mundo. Temos pessoas aqui que são consideradas das maiores do mundo. A Cristina Reis [cenógrafa da Cornucópia] é uma das maiores cenógrafas do mundo. O Luís Miguel fez durante 40 anos o trabalho de um teatro nacional, e primorosamente. É a este homem que vamos atacar, vamos dizer ah ele agora vai fechar, mas ele quer fechar ou não? Um disparate medonho, tudo aquilo. Eu não sei muito bem falar sobre estas coisas, há pessoas que falarão melhor certamente, mas acho feio. Como o meu pai dizia, é mal educado.

E está tudo dito nessa expressão.
É mal educado.


Fonte -  DN 






28 outubro 2016

João Lobo Antunes




João Lobo Antunes

Marcos Borga


Morreu o neurocirurgião João Lobo Antunes. Tinha 72 anos, era atualmente presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Recorde a sua últiam entrevista ao Jornal de Letras, publicada em outubro de 2015.

O bisturi e a palavra, a escrita cirúrgica: o cirurgião do cérebro sempre na companhia da literatura. Melómano, esteta, pensador humanista, é um dos grandes nomes da medicina portuguesa, Prémio Pessoa 1996, Prémio da Universidade de Lisboa 2013. Jubilado da sua cátedra da Faculdade de Medicina, afastado há dois meses da cirurgia, por doença, revela ao JL que prepara agora as suas memórias – e lança uma coletânea de ensaios, prestes a chegar às livrarias, que configuram uma arte poética e ética: Ouvir com Outros Olhos. O JL entrevistou-o e Miguel Real escreve sobre a sua obra e o novo livro.

Que fez dele um cirurgião do cérebro? Para responder a essa pergunta, João Lobo Antunes, 71 anos, está a escrever as suas memórias, muitas histórias que recorda do seu passado de décadas de vida médica, com a “vertigem” de quem põe a escrita em dia. E em tudo o que escreve se adivinha, adianta, uma forte e persistente “compulsão biográfica”.
A literatura, de resto, acompanhou-o desde um tempo ainda anterior à Medicina, paralelamente ao estudo metódico, horas a fio, cadenciado pelas badaladas do sino da igreja de Benfica, bairro onde cresceu. E a par da sua prática clínica, escreveu sempre. Ensaios, que o “pudor “nunca lhe permitiu a tentação da ficção.

Agora reúne de novo em livro, Ouvir com Outros Olhos, um conjunto desses textos, escritos nos últimos anos, alguns inéditos, outros dispersos por várias publicações. Uma edição da Gradiva, do seu amigo Guilherme Valente, em que além da medicina e da literatura reflete sobre as humanidades, a universidade, a ética, o estado social e Portugal. Uma ‘bula ‘do seu pensamento, em que avança algumas preocupações. A prescrição é pôr-nos a pensar olhando o mundo com todos os sentidos.

Ouvir com Outros Olhos culmina de alguma maneira o ciclo ensaístico iniciado com Um Modo de Ser (1996), a que se seguiram Numa Cidade Feliz (1999), Memória de Nova Iorque (2002), Sobre a Mão e outros ensaios (2005), Inquietação Interminável (2010) ou a biografia de Egas Moniz (também de 2010), o Nobel português da Medicina, entre outras obras e centena e meia de artigos científicos.
Nascido em Lisboa em 1944, estudou no Liceu Camões, depois na Faculdade de Medicina de Lisboa e no início dos anos 70 demandou Nova Iorque, onde prosseguiu a sua formação em neurocirurgia. O cérebro e as ciências neurológicas são um ‘pergaminho’ familiar, já que o pai também era neurologista – e prof. de Medicina. E filho de peixe… Dois dos seus irmãos seguiram o mesmo ramo, o escritor António Lobo Antunes, psiquiatra, e Nuno Lobo Antunes, neurologista pediátrico, que também já se estreou no romance. A escrita parece ser outra ‘jóia’ de família.
Investigador e cirurgião, João Lobo Antunes regressou a Portugal em 1984, passada mais de uma década nos Estados Unidos, onde se especializou e lecionou na Univ. de Colúmbia. Foi catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa, diretor do serviço de Neurocirurgia do Hospital de Santa Maria – e atualmente preside ao Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV). Uma carreira brilhante, reconhecida e premiada no país e no estrangeiro, a que aliou a intervenção cívica e política. Foi mandatário nacional das candidaturas de Jorge Sampaio e Cavaco Silva à Presidência da República.
Uma vida cheia, uma "guerra vivida com leveza”. É o que diz ao JL, no seu “escritório-reduto”, às Janelas Verdes, o claro outono a entrar sala dentro, de vez em quando com ironia, outras disfarçando uma subtil comoção, sempre a cuidar das palavras. E, sob a mão, que opera e escreve, uma amável humanidade
JL: Em Ouvir com Outros Olhos traça, de um modo lato, a sua ‘arte poética’?

João Lobo Antunes: Assumi sempre a escrita como atividade paralela da minha vida clínica, da qual me retirei bruscamente há uns meses, por causa da doença. E ao longo de todos estes anos em que fui cirurgião do cérebro, recolhi muitas memórias, histórias. Certamente foi a esse manancial, a esse tesouro, que fui buscar muito material para o que escrevi. Aliás, há muitos escritores médicos distintos, quer na nossa língua, quer noutras.

A proximidade do sofrimento, o conhecimento profundo da condição humana, propiciam a escrita?

Por exemplo, o poeta William Carlos Williams e o fenomenal Tchekhov reconheceram que o que colheram da sua vida como médicos foi essencial para a obra que construíram.

No seu caso, carreou a experiência e a escrita fundamentalmente para o ensaio. Porquê?

Nunca consegui ultrapassar uma barreira, um certo pudor, que me impede de ser um contista, um romancista como Fernando Namora ou o meu irmão António [Lobo Antunes] e tantos outros.

Que pudor foi esse?

Qualitativamente, era para mim um salto que não tinha coragem de assumir. Este meu livro está semeado de evocações de pessoas e de episódios, mas acho que nunca seria capaz de escrever uma novela ou um conto.

E nunca teve essa tentação?

Não. Mas há no que escrevo uma “persistente compulsão biográfica”. Fui buscar essa expressão à admirável tese de doutoramento sobre Padre António Vieira de Margarida Vieira Mendes, que foi minha cunhada e morreu tão cedo [foi mulher de Miguel Lobo Antunes, mãe de José Maria Vieira Mendes]… Ela dizia justamente que na pregação de Vieira estava sempre presente essa compulsão. É curioso que mesmo quando escrevi sobre ética médica pura me foi apontado, quase como uma crítica, que personalizava muito o que dizia. De facto, a reflexão que fiz sobre temas éticos é a história das minhas inquietações. Ou seja, em que medida os diversos problemas e desafios que se punham à ética contemporânea me faziam vibrar, me interrogavam e deixavam perplexo. A coletânea que fiz dos meus escritos estéticos chama-se mesmo Inquietação Interminável. Ouvir com Outros Olhos tem também essa perspetiva biográfica. E depois de o ter concluído, lancei-me numa outra aventura.

Qual?

Quando cheguei aos 70 anos, perguntei precisamente a mim próprio o que iria fazer, agora que já não tinha que ir todas as manhãs para o Hospital de Santa Maria, coisa que me dava um enorme prazer. Decidi que ia entreter-me com a minha inteligência. Dito assim, isto pode parecer um pouco pretensioso, mas pensei que iria ser como um mineiro a escavar as recordações, uma exploração da mina da minha experiência, lembrando no fim da vida todas essas histórias e sobretudo divertindo-me. É isso que estou a fazer, a escrever as minhas memórias. A ideia é saber como me fiz cirurgião do cérebro.

Centra-se nos anos iniciais da sua carreira?

Desde a altura em que nasci, o meu ambiente familiar, toda a formação, a ida para Nova Iorque, até ao meu regresso a Portugal, para ser professor de neurocirurgia. Tem-me dado muito prazer escrever estas memórias. A ameaça de mortalidade que a minha vida atravessa neste momento, que tenho encarado com relativo otimismo, faz com que esteja envolvido nessa tarefa quase como uma vertigem.

Com urgência?

Com medo de não conseguir chegar ao fim. Nessa memória, a biografia afirma-se com extraordinário vigor e imediata nudez. É a minha história, a visão que tenho de mim próprio e sobretudo procuro responder a essa pergunta que fui pondo a mim mesmo toda a vida: como me fiz assim, como é que a medicina me fez médico? É interessante como a profissão faz de nós aquilo que somos. E isso não se aprende nos bancos das escolas.

E então o que fez de si um cirurgião do cérebro?

Ah, para o saber tem que ler o livro, quando sair [risos]. Não há dúvida que teve importância o meu pai. De seis filhos rapazes, três foram para Medicina, três para a área das neurociências. Vivia-se o cérebro naquela casa. A certa altura, pensei ir para cardiologia, porque achava a mais matemática das especialidades, embora hoje seja muito diferente e interventiva. Por outro lado, desapontava-me a ineficácia, a impotência terapêutica da neurologia. Isto há 50 anos. O diagnóstico era elegante, mas havia pouca coisa a fazer para ajudar os doentes. O braço armado da neurologia era a neurocirurgia e foi o que fiz. E confesso que houve outra tentação.

Que foi…

Desenhava com algum talento, modelava, esculpia, mas não era dotado de mãos habilidosas. Ainda hoje, se tento reparar um eletrodoméstico, os movimentos são quase grotescos. Era portanto um enorme desafio ir para neurocirurgia e perguntava-me mesmo se seria capaz de usar as mãos para operar. Curiosamente, quando opero, do ponto de vista técnico e gestual, estou mais próximo do pintor, o bisturi mais perto do pincel do que da chave de fendas. É claro que tive bons mestres, que me ensinaram a técnica e a estratégia, igualmente importante. A pouco e pouco, consegui dominar bem as duas mãos. São a guitarra e a viola. E comecei a ter um prazer quase sensual no ato da cirurgia e um conceito estético.

Estético?

Os movimentos têm que ser elegantes, diretos, leves como uma pluma.

Parece referir-se a uma dança e não a uma cirurgia ao cérebro, que temos a ideia de ser qualquer coisa de muito violento e brutal.

É evidente que conheci cirurgiões brutais. Mas no Instituto Neurológico de Nova Iorque, onde me formei, era fundamental a ideia de que o cérebro é um órgão sagrado, onde se deve tocar com rigor e especial delicadeza. Havia o princípio de técnica cirúrgica, tentar tirar um tumor sem tocar no cérebro. Nem sempre é possível, mas é o desejável. Essa foi a doutrina que aprendi. Um dia um dos meus mestres, falando de cirurgias e de técnicas, disse-me que alguém era um cirurgião porco, porque acabava as operações com a bata suja de sangue, limpava as mãos nela. A partir daí, percebi que o ideal era sair da cirurgia com a bata imaculada, sem uma mancha…

Depois de tantas cirurgias, continua a achar que o cérebro tem esse caráter sagrado?

Tem que ser tomado como tal, até por ser tão distinto de todo o resto do nosso corpo. E, no entanto, quando o olhamos é tão indiferente no seu aspeto, tão monótono. Hoje em dia temos técnicas de neuronavegação que nos permitem olhar aquela massa indiferente e saber o que cada zona representa. Escrevi já um texto literário sobre o ato de operar com o doente acordado, o que se faz hoje cada vez com mais frequência.

O que sobretudo lhe interessou nessa experiência?

O diálogo que vamos mantendo com o doente, enquanto decorre a cirurgia. Ele vai falando connosco e através do que diz, vamos percebendo onde estão os terrenos proibidos e por onde podemos avançar. Foi assim, aliás, que a neurocirurgia começou. Num capítulo que já escrevi das memórias, reencontrei uma história fantástica de um dos meus mestres na América, um famoso cirurgião de um grande carisma que uma vez estava a operar, com anestesia local, e a doente perguntou se podia fumar um cigarro. Ele respondeu: “Go ahead, honey”. Começou a ver-se sair fumo debaixo dos panos, enquanto continuava a operar, impassível… [risos]

A palavra é, nessas cirurgias ‘conversadas’, o fio que mantém a vida?

Sim, sim. Falo muitas vezes da importância da palavra, como acontece no fim de um dos textos de Ouvir com Outros Olhos. Pouco antes de morrer, o filósofo Fernando Gil disse-me que estava a escrever sobre as preposições. Até com palavras que nos parecem insignificantes, podemos construir uma filosofia, um poema. Sempre senti esse encanto da palavra. Quem não estudou pelos livros, nem sabe o que perdeu. E quem não aprecia as palavras também não.

Quando escreve, cuida minuciosamente da linguagem?

Até quando falo. Nunca fui capaz de usar frases mal construídas, quando conversava com um doente ou qualquer pessoa. É em mim natural esse apurar do discurso. A linguagem ensina-nos a pensar. Isso torna-se particularmente interessante quando as pessoas são bilingues, como é o meu caso. Uso o português e o inglês para funções diferentes. O inglês é mais prático, introduzi na sala de operações uma série de termos ingleses. E acontece em algumas situações com emoções mais fortes, por exemplo quando falo com as minhas filhas.

E a Língua Portuguesa?

É um conforto, é extremamente enriquecedora.

Vem de longe o seu interesse pela literatura?

É fundamental para mim. Mesmo o ensino da ética poderia fazer-se quase exclusivamente a partir de livros de ficção. Está lá tudo. A Morte de Ivan Ilitch, por exemplo, cobre tudo o que se pode dizer de pertinente em relação à morte. É extraordinário como Tolstoi conseguiu captar todas as nuances. Sentimo-lo particularmente quando passamos pela experiência de uma doença séria.

Voltou a ler agora esse romance?

Releio-o constantemente na minha cabeça, quase o podia reconstituir de cor. E já escrevi sobre isso.

Está a escrever as memórias de raiz?

Tenho partes antigas, mas também muitas novas, porque a concentração absoluta no passado em que vivo hoje, por causa da escrita, vai-me fazendo descobrir outras coisas. É como uma luzinha que está sempre a aparecer num cenário negro, vou ver o que me está a chamar e lá está mais uma narrativa. Preocupa-me um pouco se as pessoas vão entender estas memórias apenas como celebração de um triunfo, de um sucesso na vida.

Mas teve-o.

Objetivamente, consegui-o. Mas talvez não percebam que foi graças a uma total dedicação ao trabalho e a um programa muito austero ao serviço das pessoas e das ideias. Por outro lado, vou escrevendo com uma vaga desconfiança em relação a quem serão os meus leitores.

Em que sentido?

Se isto que me interessa escrever, interessará a alguém ler. Pelo menos os meus netos um dia talvez tenham curiosidade de saber o que o avô fez. E ainda não arranjei um título. Se fosse em inglês, sabia.

Qual seria?

The Making of a Brainsurgeon.
Aliás, já fiz uma conferência com esse título. Mas em português, não me parece feliz. Também não posso chamar-lhe De Benfica a Nova Iorque, que ainda se confunde com a biografia de algum futebolista do Benfica … [risos]

Cita diversas vezes Montaigne no seu livro, nomeadamente quando fala do métier e da arte de viver.

E julgo que numa das Cartas a Lucílio, Séneca diz “vivere militare est”: a vida é uma guerra, uma luta.

É isso que a sua vida tem sido? Uma guerra?

Tenho refletido muito sobre o que foi a minha vida e diria que se houve guerra foi vivida com leveza. Perdi muitas batalhas, como médico e cirurgião. Mas ganhei mais do que perdi. Devo dizer que sempre com uma estratégia cautelosa. Nunca me meti numa guerra que não achasse que tinha possibilidade de vencer. Ou seja, fui sempre pragmático, apesar dos meus devaneios literários ou filosóficos. E tive muitas quando voltei a Portugal.

Um momento de mudança?

A minha vida teve duas grandes etapas, a primeira aquela que se concluiu com o meu regresso a Portugal, em que fui basicamente um clínico que fez investigação - muita, e acho que boa. Mas não estava então envolvido em qualquer forma de vida pública ou cultural organizada. Quando voltei, abriu-se uma nova etapa em que comecei a ter mais intervenção, depois de um período de análise da situação social.

Certamente era diferente o país que encontrou?

Muito diferente daquele que tinha deixado. Dez anos depois do 25 de Abril, havia um jogo e regras completamente diversas. Por isso, tive esse tempo de observação, que fiz com imensa ternura em relação ao meu país.

Foi essa ternura que o levou a voltar?

Sim. De resto, os dois últimos textos de Ouvir com Outros Olhos são dedicados a Portugal. Muito simples e despretensiosos, mas que quis deixar como testemunho de devoção à minha terra. E também por isso comecei a intervir, na escola, em várias organizações, assumi uma série de incumbências.

E foi mandatário da candidatura de dois Presidentes da República.

Tive uma presença política e pública, mantendo-me sempre independente, porque nunca me filiei em nenhum partido. Também uma intervenção importante na minha universidade.

A universidade é um dos temas de Ouvir com Outros Olhos.

Este livro é provavelmente a minha última coletânea e representa o que fui escrevendo nos últimos anos, muito heterogéneo por natureza. Quis manter essa heterogeneidade, agrupando os ensaios em pares. Num deles, conto a história da fusão das duas grandes universidades, na Universidade de Lisboa, em que participei. É um exemplo importante neste momento.

Porquê?

Porque é agora necessário fundir boas vontades e encontrar compromissos, consensos, o que foi possível entre duas universidades tão distintas. Este livro também dá um pouco testemunho do que pode ser feito, usando uma análise crítica, independente, mas orientada para o que deve ser o interesse público, dos cidadãos, do país.

Outro dos ensaios é sobre o Estado Social, que está na ordem do dia.

O que chamo a atenção é para o facto de o Estado Social não ser nada de abstrato, mas muito concreto: o Estado Social somos nós todos, independentemente do que fazemos, do nosso estatuto e da nossa situação económica ou financeira. Por isso é de uma responsabilidade fundamental preservá-lo, mas também perceber em que direção se pode orientar, tendo em conta a modernidade e as complexidades atuais.

Numa palavra, Justiça, resume, num dos ensaios, o que deseja para Portugal. É o que mais nos falta?

A ideia de Justiça não pode ficar refém das ideologias. Tem que ser aplicada, vivida como uma condição de liberdade. O que fundamentalmente me preocupa são as questões da equidade, do acesso, e da reflexão que é preciso fazer e que as pessoas tendem a ignorar, porque não lhes convém olhar de frente os problemas. Refiro-me, por exemplo, ao facto de os recursos serem finitos e as despesas com os tratamentos e as tecnologias crescentes, em espiral. Atualmente mesmo com contornos abjetos. Alguns laboratórios compram patentes e isso dá-lhes a liberdade de tornar determinados medicamentos quase inacessíveis. Neste momento, estou a receber um tratamento que se tem revelado de uma enorme eficácia, mas vai custar uns milhares de euros. Haverá uma altura em que será necessário escolhermos se uns meses a mais de vida, com um custo incomportável, se justificam.

Não será uma reflexão pacífica...

Do ponto de vista ético, há muitas causas fraturantes, em que toda a gente acha que sabe e tem uma opinião segura e fundamentada, quando a maior parte das vezes é ignorante. A eutanásia, só para dar um exemplo. As pessoas não sabem nada o que representa, sobretudo na mudança quase radical no paradigma da prática médica e do entendimento da função do médico. É preciso chamar a sociedade a refletir e discutir todas estas questões. A decisão não pode ser entregue apenas a um grupo, seja ele qual for, de políticos, de governantes, da indústria ou da academia. Tem que ser um compromisso nacional. Há todo um processo a fazer de educação da sociedade portuguesa, para criar alguma literacia ética nestas matérias delicadas. Mas não, as pessoas apenas se vão distraindo, com alguma culpa dos media, quando há extraordinários desafios. Com que olhos vemos, por exemplo, as imagens televisivas daqueles barcos tão frágeis, carregados de pessoas como nós, que fogem da guerra, da fome? Talvez com uma compaixão, mas passiva. A minha preocupação moral vai nesse sentido e é sobre isso que tenho falado muito.

Em relação à sua prática clínica, fala de uma “medicina narrativa” e justamente de “compaixão”. 

Os filósofos que me perdoem, mas criei esse termo, “compaixão ontológica”. Isto é, a compaixão que emerge da raiz do ser que nós somos. Fui apurando-a com a idade: um aperfeiçoar do olhar, do ouvir Foi uma surpresa, porque achava que o tempo me ia tornar empedernido.

Esse é o lugar-comum, do médico, frio, que ganha uma carapaça de indiferença.

Foi um consolo perceber que não era assim. Quando comecei a ter mais tempo para estar com cada um que me procurava, criei quase um prazer, como aquele que temos quando ficamos sentados à mesa, com os amigos, depois do jantar, do café. A consulta tornou-se uma conversa em que tentava ouvir, perceber melhor quem estava à minha frente.

Um olhar humanista?

Gosto de olhar para as pessoas. A minha mulher [Maria do Céu Machado, pediatra, diretora do Hospital de Santa Maria] até diz que olho muito [sorriso]… Lembro-me sempre de uma altura em que Sydney Brenner, uma das maiores figuras da biologia molecular, Prémio Nobel, muito ligado a Portugal, esteve em Lisboa e eu levei-o a um restaurante no Guincho com uma vista espantosa. Achei que o devia pôr num lugar em que ele olhasse para a paisagem. Ele disse-me que mar tinha ele na Califórnia e que preferia virar-se ao contrário para ver as pessoas, o povo do país que estava a visitar. Nesse olhar, mesmo em consulta, está implícito o escritor, o narrador, mesmo que não ponha nada por escrito. Mas fica guardado.

Neste livro escreve também sobre um par de amigos.

O grande filósofo Fernando Gil e um colega cirurgião, excelente, Henrique Bicha Castelo… Aproveito mesmo para dissertar sobre se dois cirurgiões podem ser amigos, ou como se sustenta a amizade em oficiais do mesmo ofício.

E não podem? É grande a rivalidade?

Os cirurgiões têm algumas características psicológicas muito particulares, pensam que estão munidos de poderes demiúrgicos e são altamente independentes. Mas vigiam-se uns aos outros e está latente um espírito de competição, de rivalidade. É muito difícil ser-lhe imune.

Diz que o filósofo Fernando Gil foi uma referência fundamental, que conheceu tarde de mais. Porquê?

É uma referência intelectual, cultural muito importante para mim, que cito frequentemente. Uma outra é George Steiner, cuja obra conheço profundamente. De alguma maneira, foram os meus maîtres à penser, pessoas que me ensinaram a pensar. O Fernando chegou realmente tarde à minha vida e partiu cedo de mais. Quando ele adoeceu, tínhamos combinado ir passar uns dias aos Alpes. As nossas mulheres iriam esquiar e nós certamente ficaríamos a conversar na cabana, se calhar a beber um conhaque…

E de que conversavam o filósofo e o cirurgião do cérebro?

De tudo e de nada. Fernando Gil era um homem de uma cultura extraordinária e costumava dizer que eu tinha algo que ele não tinha: o conhecimento das vidas. Esse era o ponto de equilíbrio. Falávamos de Filosofia, de projetos, do que fazíamos, de livros. E muitas das nossas conversas eram silenciosas.

Sobre dois livros, De Profundis, Valsa Lenta, de José Cardoso Pires, e Sôbolos Rios Que Vão, de António Lobo Antunes, escreve dois ensaios.

Diria antes que são dois comentários, que, de resto, escrevi para o JL.

Foi um interveniente ativo no livro de Cardoso Pires, já que ele o escreveu depois de ter tido um AVC e de ter sido tratado por si no Hospital de Santa Maria.

Tive nisso um papel menor. O maior foi mesmo fazer com que ele escrevesse e publicasse. Incentivei-o imenso. O meu ensaio é um pouco a nossa história: Zé, eu e o livro. Tivemos um grande contacto ao longo dos anos e guardo de Cardoso Pires algumas notas fantásticas. O outro comentário é sobre o romance do meu irmão António e foi a única vez que escrevi sobre a sua literatura. Uma obra em que ele aborda a sua experiência como doente, depois de ter sido operado a um cancro, de que felizmente recuperou muito bem.

Gosta de fazer crítica literária?

Sempre tive a tentação de escrever sobre literatura. Se tivesse outra vida, queria tirar um curso, reencarnar como um literato, mas desde que guardasse a experiência colhida como cirurgião na vida anterior.

Imagino que já voltou a pôr o despertador para muito cedo, o que estranhou não ter que fazer, quando se jubilou…

Mantive de facto uma série de atividades e aparecem-me dúzias de convites para falar aqui e ali, integrar comissões disto e daquilo. Conservei também o Conselho Nacional de Ética, do qual sou agora presidente, só o destino sabe até quando. Também um trabalho mais técnico que me pareceu importante: tentar definir os centros de referência nas várias áreas da saúde. E tenho ainda outro projeto.

Literário?

Sempre vivi para resolver problemas, de outros. A minha intervenção cívica e pública tinha esse sentido pragmático. Quando adoeci, a minha filha mais velha, Margarida [Maria João, Paula e Madalena, são as outras três filhas], também médica pediatra, começou a enviar-me um poema todos os dias, em língua inglesa, à volta da variedade do amor. Tenho-me entretido a traduzi-los.

São dos seus poetas preferidos?

Alguns da admirável Szymborska, que conheci na tradução francesa. Mas também de Robert Frost, E. E. Cummings e outros.
E está a gostar de os traduzir?
É um exercício de uma dificuldade fascinante. O meu projeto é fazer uma seleção e publicá-los, um livro chamado 50 Poemas para o Meu Pai. Evidentemente, há poesia portuguesa muito boa e sólida, mas talvez fosse interessante. É com tudo isto que me vou entretendo. A solidão pode ter uma robustez criadora, ser um refúgio.

Essencial para si?


Toda a vida. Aprecio muito o convívio, mas tive sempre aquilo a que Montaigne chamava uma sala no fundo da casa que nós somos. Tem diversas divisões, mas há uma que fechamos à chave e só deixamos entrar muito poucos. Aproxima-se muito do núcleo personalista, daquilo que é a nossa única pertença, aquilo que é verdadeiramente nosso. É isso que em parte também transparece em Ouvir com Outros Olhos. E tenho muito mais papéis por organizar. Estou ativo. Porque não posso, nem devo deitar fora uma experiência de tantos anos.