06 julho 2009

Portugal!

Já teve esperança em Portugal?

-A última vez foi quando entrámos para a Europa. Na altura, o Hernâni Lopes, que era ministro das Finanças, disse, "acabou-se o fado". E, de facto não se acabou, os portugueses reagiram exactamente ao contrário! Agora toda a gente fala de crise, eu acho que ninguém aprendeu coisa nenhuma com a crise, nada, zero! Toda a gente exige tudo do Estado e da sociedade e pouco está disposta a dar. Um dos exemplos que eu costumo dar, até o usei num dos meus últimos textos no Expresso, é as fundações. Porque nós devemos ser o único país do mundo onde uma pessoa cria uma fundação e em lugar de ter um património pessoal que põe ao serviço da sociedade, começa por ir pedir ao Estado que lhe dê um favor. Uma sede, ou isto, ou aquilo…

Uma sede em frente ao rio, de preferência...

-Um espacinho à beira-rio, como a Fundação Champalimaud, ou a Casa dos Bicos, como a Fundação Saramago, ou o CCB, como a Fundação Berardo. Nós não temos noção de que o País se constrói com o esforço de todos, achamos que há uma entidade mítica chamada Estado cuja obrigação é distribuir tudo a toda a gente que se colocar numa posição clientelar. Quem não se colocar numa posição clientelar é o otário que paga 42% de IRS e não recebe nada em troca. Nós temos um problema de elites, de facto. E isso vem de cima para baixo e acaba por desaguar nos cafés. Vou-lhe dar um exemplo e espero que ele não se zangue comigo, se se zangar, paciência. Um dos últimos grandes políticos em que eu depositei imensas esperanças foi no António Vitorino. E o que é que ele fez em troca do poder político que tinha? Nada. Na primeira oportunidade foi-se embora, tratou de ganhar dinheiro. É isso que fazem as nossas elites todas, nós não temos um espírito de serviço público, nem mesmo das pessoas que resolveram ir para a política!

Já disse que as pessoas estão demasiado expostas e se cansam. Não pode ser por causa disso?

-Estão. Mas também se expõem. Grande parte de políticos que prometiam tudo saíram, e estão todos em lugares públicos, em administrações de bancos, em coisas ligadas ao Estado, ou refugiados em escritórios de advocacia a dar pareceres para o Estado, a inter-mediar contratos, ganhando balúrdios de dinheiro. E as pessoas pensam: "Mas qual é o exemplo?"

Miguel Sousa Tavares em entrevista ao DN

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