17 novembro 2006

O meu quintal


Não ficou qualquer outro registo.
As cores de verão que quente me surpreendia, a rondar a porta do formigueiro. Contava--as uma a uma, mas às vezes já me falhava a sequência e desistia. Divertia-me, espreitar o que levavam agarrado ao corpo. Não percebia porque levavam coisas tão grandes que quase pareciam impossíveis. Os meus impossíveis também chegavam a ser pesados, embora não lhes visse o volume.
O triciclo também desapareceu. Até hoje foi o que mais gostei de conduzir. No meu quintal não havia auto-estradas mas os caminhos eram muitos e eu fazia quilómetros à volta dos canteiros e dos cheiros.
A relva era inundada de roupa com frequência. O que eu gostava de lhe encontrar o macio debaixo dos pés descalços…
A mesa de pedra em tamanho XL ficava em frente, e as molas da roupa enfeitavam-lhe o espaço.
Os armários de garrafas verdes vazias à espera de vinho inventado já no Outono e os passos arrastados do mais velho do clã, que em rabugice desfiava ordens de protecção das suas obras. Naquele quintal tudo lhe pertencia mas eu acreditava que não. Apesar de ser sua a arte era meu, o domínio. Não havia um centímetro que não conhecesse… mesmo o que pertencia aos que voavam. Acompanhei andorinhas em voo rasante e seguia com elas até ver as estrelas perto do cabelo. Um dia ficou lá presa a minha trança e até hoje não a consegui recuperar.
Debaixo do telheiro havia uma capoeira de coelhos. Um dia apercebi-me que cada vez havia mais. Na mais pura das inocências chamei-lhe mistério. Apareciam sem eu saber como. Mistério para mim era uma palavra mágica. Chamava isso a tudo o que ia para além do meu entendimento, e ficava resolvida a minha ignorância. Esse conceito aplicado ao presente simplificaria todas as minhas convicções / limitações…
O cavalo de madeira tinha uma campainha que tocava com a sequência do galope. Era a minha irmã que costumava galopar com mais força. Quando chegou ao quintal, já eu preferia pedalar, de modo que nunca lhe liguei muito. Preferia movimento naquele espaço, para que não o visse como era realmente…
É íntimo cada som e cada imagem que reservo. É aí que encontro a minha infância.
De vez em quando, ainda acompanho os voos rasantes… mas agora já não há trança para prender nas estrelas…
Nesses que ainda faço, estão algumas estradas desenhadas, mas há um caminho sem limites. O pensamento não conhece fronteiras, nem cor, nem credos. É sempre libertação. Mesmo que o corpo se prenda nas teias de um mundo concebido em ferro, é volátil o pensamento e foge de limites que o corpo desenha. Já longe do meu quintal, costumo gritar alto…
Mas quando abandonar as asas que me transportam, direi apenas… “até breve…”
E se eu quiser acrescentar um som às cores de verão de minhas memórias, ouvirei ao fundo, entre um mar e uma montanha que guardo no meu peito, uma trompete e uma guitarra portuguesa…no meu quintal…

Texto – Manuela Lamy
Foto – Alba Luna

2 comentários:

Ludovicus Rex disse...

Este texto me tocou bem nas minhas recordações, levou-me até ao perdindo mundo da infância.
Um Abraço e Bom Fim de Semana

magnolia disse...

Que bonito! Obrigada por nos permitir esquecermo-nos por um momento do trabalho, da chuva, do stress, das contas, de tudo... e ter simplesmente 5 minutos de paz nas recordações da nossa infância... tenho saudades desse meu quintal! Felizmente, tive a sorte de ter um maravilhoso quintal!