27 outubro 2006

A Memória Meditada


A vida sendo presente é sobretudo passado, adquirindo verdadeiro sentido quando despertarmos das memórias os acontecimentos que nos ligaram indubitavelmente a essa esplendorosa viagem da qual Pitágoras apelidou e bem, de grande sala de espectáculos. Remexemos no baú das nossas recordações e eis que encontramos testemunhos de tempos menos meditados e por isso mesmo, vazios de uma atenção mais cuidadosa, justificando assim nos tempos presentes, um outro olhar e porventura uma leitura muito mais atenta e quiçá uma dedicação mais apaixonada. Há uns anos não muito longínquos conheci Fausto Bordalo Dias, compositor, cantor e um dos melhores criadores de música popular portuguesa, assisti de uma forma privilegiada a concertos musicais por si interpretados, tão importantes na sua carreira como os que se realizaram no Teatro S. Luis, no Rossio e Praça do Comércio em Lisboa, em Almada, no CCB, e por último no Seixal. Passados que foram trinta e cinco anos e encontrar uma referência deste cantor na revista Flama publicada no verão de 1972, é uma sensação de caminho percorrido desde há muito com a sua música e os poemas deste grande "trovador mas não bobo, sinaleiro mas nunca polícia", como o classificou e bem João Gobern na apresentação do seu último trabalho, A Ópera Mágica do Cantor maldito, no CCB.
Razão tem François René quando afirmou que “ A nossa vida é tão vã que não passa de um reflexo das nossas memórias”. E hoje nesta caminhada imensamente conturbada, aumenta a necessidade de continuarmos referenciados e lúcidos, de guião em punho e a voar por cima das águas, para bem das nossas existências.

7 comentários:

a.castro disse...

Gostei IMENSO de reviver o FAUSTO. Por razões óbvias e por razões pessoais: É que entre 1967/1969 eu estive em Angola, 14 meses nos Dembos, Zala, e 11 meses no Leste, Henrique de Carvalho, Luso, Nova Lisboa, etc. Ora, estou a falar de nomes coloniais... Dembos, Zala (na maior e mais densa selva de Angola) mantiveram os nomes, mas as cidades recuperaram as designações originais, passando Henrique de Carvalho a Saurimo, Luso a Luena e Nova Lisboa a Huambo... E nesta cidade do planalto leste de Angola estive 3 dias em patrulhas. Refúgio de Jonas Savimbi, terrorista, não tendo aceite os resultados obtidos em eleições para o Parlamento, preferiu continuar no "planalto" a fazer milhares de vítimas.
Não sabia (nessa altura só pensava que não sairia de Angola vivo...) que no momento em que lá estive o FAUSTO fazia as suas primeiras gravações!...
Foi, de facto, bom recordar...
Abraço!

a.castro disse...

"NUMA GUERRA NUNCA HÁ VENCEDORES"
António Lobo Antunes, dia 26 de Outubro de 2006, na RTP1.

É bem verdade e eu já conhecia a frase. Acontece que o meu "ex-colega" alferes miliciano "andou", 3 anos mais tarde do que eu, pelo leste de Angola também percorrido por mim. A base dele era em Chiúme e eu já li dois livros dele: "Nos Cus de Juda", nome por que é conhecida aquela região Leste de Angola, que no fundo é um relato pessoal da guerra ("que não era dele") e "D'este viver aqui neste papel descripto - Cartas de Guerra", publicado por vontade das filhas Maria e Joana que prefaciam o livro. "Os nossos pais conheceram-se e começaram a namorar no Verão de 1966 na Praia das Maçãs. Em 1969 foi chamado para a recruta, de onde viria a partir para a guerra colonial. Casaram a 8 Agosto 1970."
Este livro reproduz, com uma realidade impressionante, todas as cartas trocadas entre o António e a Maria José, ordenadas por datas e cada uma delas é encimada pelo ícone dos famosos aerogramas distribuidos aos combatentes pelo MNF.
Abraço.

Ludovicus Rex disse...

Sem tirar nem por... Um grande músico.
Um abraço

Anónimo disse...

Muito interessante esta meditação sobre o grande Fausto Bordalo Dias

José Marques disse...

É reconfortante fazer uma visita a este espaço e dar de caras com um cantor da liberdade e com a excelente apologia desse valioso trabalho que nos deixou.
Também andei por lá, Nova Lisboa, que quanto a mim era a cidade angolana com mais semelhanças com a metrópole em especial pelo clima ameno.
Um abraço

magnolia disse...

Como sempre um texto valioso, nas palavras e na mensagem de alerta cultural que transmite. Estar atento às coisas importantes é uma característica imperdível do MGomes. Obrigada pelo avivar da memória.

Papagueno disse...

Que bom ler um artigo sobre Fausto publicado em 1972. É um dos gigantes da música portuguesa.